Trabalho e emprego. Essas são duas palavras quase mágicas para todo recém-formado. O egresso acostumou-se a viver trabalhando (bicos, free, etc) e, na maioria dos casos, emprego que é bom nada! Essa é uma realidade em todos os campos de formação. A diferenciação entre as duas palavras, nem sempre, é facilmente entendida: trabalho não significa emprego. Com reestruturação do trabalho nos anos 1990, as duas palavras foram descoladas e, hoje, vivenciamos "trabalho" enquanto categoria que não significa necessariamente emprego. Entenda-se aqui emprego, como uma categoria que pressupõe carteira assinada, "direitos" (mesmo que poucos) assegurados, estabilidade, etc.

Lembro-me que, a uns 10 anos atrás já discutia com alunos da graduação a "formação para o desemprego". Defendia na época, que o mercado modificava-se rapidamente e, a universidade também precisava entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade. Recordo-me que foi uma guerra: fui chamado na coordenação de curso e acusado de "terrorismo", de fazer fazer alunos desistirem da área, pois alertava os acadêmicos para a possibilidade do desemprego e da necessidade de abertura de novos espaços laborais, sob pena de ficarmos "ultrapassados" para um mercado flutuante e em constante mutação.

O que esse tempo todo mostrou? Que essa é uma certeza inegável: diversas áreas encontram-se em "crise" de identidade, por não atualizarem seu cabedal de conhecimento e suas técnicas e/ou metodologias. Novas habilidades são exigidas diariamente e, nossos acadêmicos, devem ser alertados para as potencialidades de uma mercado em mutação, que exige novas competências a todo instante.

Nessa linha de pensamento, Dina Rickman escreveu uma reflexão bem interessante no Journalism.co.uk, site especializado em jornalismo. Sob o título What does a jobs crisis mean for journalism education?, Rickman alertou para a necessidades dos futuros jornalistas serem informados sobre a "crise de emprego". Por que esse alerta é importante? Porque tem-se um aumento, segundo ela, de 15,7% ao ano no Reino Unido no ingresso de novos acadêmicos nas faculdades. Esses tem "sonhos" ( como qualquer acadêmico de aparecer na "telinha" ou ser um editor de algum grande jornal), porém encontram a realidade de um mercado saturado.

Segundo Rickman, citando as estatísticas divulgadas pela untistats.com's,

[...] os dados sobre o emprego de pessoas com cursos de graduação de jornalismo revelam algumas estatísticas preocupantes.  Uma pesquisa realizada com estudantes,  após seis meses da formatura, verificaram que, com excepção dos licenciados de Bournemouth e Kingston [universidades inglesas], nenhum curso teve mais de 40 por cento dos formandos de jornalismo trabalhando em alguma mídia associada à profissão.  Um quarto dos diplomados da University of the Creative Arts estavam trabalhando como assistentes ou caixas de vendas de varejo, em comparação com apenas 15 por cento que tinham emprego garantido na mídia ou em indústrias associadas.
O que pensam os formadores nas universidades? Sara McConnell, que dirige o curso de jornalismo na  Kingston University apontou que
[...] há "muitos cursos de 'jornalismo no Reino Unido e é preciso haver um" debate sério "sobre o futuro do ensino de jornalismo". Algumas universidades estão olhando apenas para  o rendimento dos estudantes e, universidades sem escrúpulos,  podem ser desonestas a respeito de perspectivas de emprego. Seria irresponsável para nós fingimos que uma graduação é uma porta de entrada para um emprego.
Independente do que pensemos, é importante sermos honestos: um diploma não é, necessariamente, sinônimo de emprego. Isso acontece lá nos Estados Unidos e aqui também no Brasil. É claro que, as chances aumentam para aqueles que possuem competências e habilidades adquiridas no espaço acadêmico, mas  não implicam em sucesso, necessariamente.

O que temos de fazer? Como formadores nas universidades, assumir o que defendi a 10 anos atrás: o mercado modifica-se rapidamente e, a universidade precisa entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade, sobretudo, as que dizem respeito ao jornalismo digital. Não estou aqui fazendo "apologia ao mercado", queria poder não depender dele, mas a verdade é "nua e crua": somos peças de uma jogo bem elaborado nessa máquina capitalista. Ela sabe bem as regras, e nós?

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